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PUC-Rio fortalece diálogo internacional sobre inovação pedagógica no IFE 2026
Foto: Profª Roberta Portas
Data: 27 a 29/01/2026
A PUC-Rio participou do Congresso Internacional “Transformando a Educação Superior: liderança acadêmica na era das microcredenciais”, realizado de 27 a 29 de janeiro de 2026 no Tecnológico de Monterrey, tendo sido representada pela Prof.ª Roberta Portas, coordenadora da Coordenação Central de Inovação em Estratégia Pedagógica.
Organizado pelo Institute for the Future of Education, o encontro reuniu lideranças acadêmicas e especialistas internacionais para discutir o papel das microcredenciais — certificações de curta duração que reconhecem a aquisição de competências específicas — na transformação da educação superior, com foco em suas aplicações no ensino, na aprendizagem e na liderança acadêmica, bem como em seus impactos na flexibilização dos processos formativos.
A participação da PUC-Rio no evento reforça o compromisso institucional com a inovação pedagógica, o diálogo internacional e o acompanhamento de tendências que contribuem para o aprimoramento da educação superior e da formação ao longo da vida.
Leia o Artigo IFE 2026 - Roberta Portas
IFE 2026
Texto: Roberta PortasParticipar da 6ª edição do IFE Transforming Higher Education 2026: Academic Leadership in the Age of Microcredentials, sediado no Tecnológico de Monterrey, México, é como estar em um parque temático em que todas as experiências levam a refletir sobre o futuro da educação.
Este ano, o foco do evento foi microcredenciais, termo que caracteriza o reconhecimento formal e digital de competências adquiridas em percursos formativos de curta duração, também conhecidos como microcertificação.
Em um primeiro olhar, podemos entender que essa discussão se trata do ato de certificar, do tipo de certificação a ser feita ou da tecnologia que possibilita a certificação, mas esses são apenas alguns aspectos do processo. Olhar apenas por esse ponto de vista é fazer uma leitura superficial da questão, é como olhar a ponta de um iceberg e não perceber a complexidade que há para além do registro.
A programação do IFE 2026 nos fez entrar em contato com experiências e tecnologias que nos provocaram a refletir sobre as inúmeras questões que devem ser consideradas em um modelo educacional que opera com microcredenciais. Questões que não são apenas tecnológicas, mas também econômicas e sociais. De forma resumida, apresento aqui 10 tópicos que me chamaram a atenção.
Contexto estrutural do ensino superior
As discussões apontaram para o fato de que nem todas as pessoas conseguem realizar uma graduação, seja pelo investimento financeiro, seja pelo tempo de dedicação exigido. Aqueles que não têm acesso à educação superior tendem a ocupar postos de trabalho com menor remuneração ou recorrem a cursos e workshops que não garantem qualificação adequada às demandas do mercado. Mesmo para quem ingressa na universidade, o tempo necessário para a obtenção do título adia a entrada qualificada no mercado de trabalho, o que pode ser mitigado com modelos formativos f lexíveis, nos quais os estudantes conquistam titulação à medida que avançam nos módulos previstos nos currículos. Nesse sentido, as microcredenciais realizam um papel de certificação com a comprovação de competências que possibilitem a entrada no mercado de trabalho enquanto se estuda.
Transformações no mundo do trabalho
As mudanças tecnológicas constantes alteram rapidamente as profissões e os perfis profissionais. Nesse cenário, uma titulação de nível superior não garante, por si só, aderência contínua às exigências do mercado. A atualização frequente passa a ser necessária, o que coloca em questão currículos rígidos e processos longos de revisão curricular, que não acompanham a velocidade das transformações sociais, econômicas e tecnológicas.
Microcredenciais como resposta educacional
Ao certificarem pequenos percursos formativos, as microcredenciais permitem o reconhecimento progressivo das competências adquiridas. Esse modelo possibilita que o estudante ingresse no mercado de trabalho antes da conclusão do seu curso e continue estudando. As microcredenciais podem certificar competências técnicas ou comportamentais, atendendo tanto à formação básica quanto às demandas atuais do mercado de trabalho.
Arquitetura educativa e dos percursos formativos
O modelo baseado em microcredenciais desloca o foco da obtenção de um título para a formação ao longo da vida. Nesse modelo, considera-se o estudante no centro das decisões sobre seus percursos, de acordo com seus interesses, habilidades e necessidades. Algumas discussões apontaram para a universidade como ponte entre o ensino básico e a vida profissional, ofertando microcredenciais de interesse a esses públicos.
Avaliação e qualidade acadêmica
As microcredenciais não devem ser compreendidas como certificados de participação, mas como conquistas baseadas na avaliação de competências. O plano de estudos precisa explicitar as competências a serem desenvolvidas e os critérios de avaliação, contemplando tanto o domínio conceitual quanto a aplicação prática. A validação entre pares e o reconhecimento institucional são elementos centrais para a credibilidade das microcertificações.
Relação com o mercado de trabalho
As discussões destacaram a existência de lacunas entre as competências demandadas pelo mercado e aquelas tradicionalmente entregues pelas universidades. As microcredenciais podem contribuir para reduzir essa distância, desde que sejam construídas de forma criteriosa. A cocriação com empresas requer diagnóstico prévio, clareza de objetivos e atenção para que a missão social da instituição não seja substituída por interesses imediatos do mercado.
O papel da tecnologia e da inteligência artificial
A flexibilidade do modelo depende da integração entre sistemas capazes de apresentar, de forma clara, as competências conquistadas e aquelas ainda a serem desenvolvidas. O uso de inteligência artificial pode apoiar o estudante na visualização de percursos formativos alinhados a determinados perfis profissionais e às demandas do mercado, desde que integrado a sistemas confiáveis e interoperáveis.
Mobilidade acadêmica e a construção de um ecossistema global
As microcredenciais possibilitam transferibilidade e reconhecimento entre instituições, o que implica mudanças nos modelos operacionais atuais. Para isso, será necessária a criação de um ecossistema de validação entre instituições que possibilite que as microcertificações tenham seu valor e credibilidade reconhecidos em escala global. A adoção de carteiras digitais permite a organização e a visualização das competências certificadas, fortalecendo a mobilidade acadêmica e possibilitando que o estudante comprove as competências conquistadas ao longo de sua vida profissional.
Desafios institucionais
A adoção do modelo implica investimento em sistemas integrados e na construção de uma linguagem única que possibilite a mobilidade acadêmica entre instituições e o reconhecimento das microcredenciais por parte das empresas. Visualiza-se a necessidade de enfrentamento das resistências relacionadas aos aspectos econômicos que a mobilidade acadêmica suscita. As discussões reforçaram a necessidade de deslocar o foco da competitividade econômica para a construção de modelos educativos comprometidos com a formação ao longo da vida.
Dimensão humana e social do modelo
As microcredenciais podem ampliar o acesso à educação, favorecer a mobilidade social e atender pessoas que não podem interromper suas atividades profissionais para estudar por longos períodos. O portfólio de competências deve pertencer ao estudante, e não à instituição, reforçando a autonomia e a personalização da experiência formativa. A formação integral, incluindo competências socioemocionais, foi apontada como parte constitutiva desse modelo.
As discussões do IFE Transforming Higher Education 2026 evidenciaram que as microcredenciais não devem ser compreendidas apenas como um novo formato de certificação, mas como parte de uma mudança mais ampla nos modelos educativos. Trata-se de repensar a arquitetura da formação, os percursos de aprendizagem, os processos de avaliação e a relação entre instituições de ensino, mercado de trabalho e sociedade. A adoção desse modelo exige mudanças institucionais, integração de sistemas e construção de ecossistemas colaborativos que garantam qualidade, reconhecimento e mobilidade. Nesse contexto, as microcredenciais se apresentam como um elemento estruturante de uma educação orientada à formação ao longo da vida, centrada no estudante e conectada às transformações contemporâneas.