Dois cárceres, um homem e um jaguar. Ao meio-dia, abrem o alçapão. O primeiro contempla o segundo, “que mede com secretos passos iguais o tempo e o espaço do cativeiro”. Um exercício sem fim, coreografado até que a presença de um dos companheiros finde. O espaço descrito no conto de Borges, epígrafe deste texto, muito se assemelha ao que adentrará quem nos lê; é de pedra, é antigo, é alquímico. E somos a ele conduzidos por uma escada em espiral. Um jogo de ecos e ressonâncias entre realidade e literatura que incluirá também a produção exibida logo abaixo. Como afirmam as tradições milenares, reencenar não reproduz o mesmo, mas o dobra, gerando diferença.
As mandalas atravessam culturas, religiões e sistemas de pensamento, oferecendo uma partitura segura aos aspirantes ascensionais, que, ao contemplá-las ou representá-las, compreenderiam os ciclos de nascimento, morte, nascimento a que estão enlaçados... até aceitarem que não há vida e morte, apenas há. Concretas e imantadas, submetidas às divisões modulares, aparentam ser refratárias às oscilações composicionais. Estão atadas ao serial, pela recorrência e pelas repetições. Mas sabemos quão tortuosos são os exercícios depurativos. As escrituras, as artesanias, os passes de corpo, os ensinamentos transmitidos de mestre para aprendiz ajudam, mas não garantem uma jornada linear. Uma zona porosa construída entre rigor e instabilidade deve ser cartografada pelo devoto. Há algo de singular, de desvio, que nasce dentro da restrição, quase ao acaso, que deve ser criação exclusiva do sujeito. Apenas quando bordo e porto se indiscernibilizam, cessa a dualidade.
As “túnicas”, alusão à vestimenta dos incontáveis Budas que foram, são e serão representados na história do sagrado, compõem, ao lado das geometrias concêntricas, as referências imagéticas que guiam Monteiro. Panejamentos encarnam ritmos, ondulações e estados de consciência. O tecido não cobre o corpo, ele o excede, tornando sensível uma dinâmica interna, quase meditativa de imaginar o oculto. O zênite, por sua vez, introduz uma condição paradoxal: o ponto de máxima luz, no qual a sombra se anula, coincide com o “vinco dos vincos”, a dobra extrema que articula céu e terra. Entre o subsolo e o supersolar, instaura-se um eixo vertical que atravessa regimes distintos de existência: o orgânico, o mental, o cósmico. No Solar Grandjean de Montigny, essa verticalidade se dramatiza, cruzando o úmido e fúngico andar inferior, onde a vida se afirma em ciclos de decomposição e regeneração, ao ápice luminoso que suspende a representação.
A relação entre nossa artista e a dobra também pode ser pensada, simbolicamente, a partir da origem etimológica de seu nome: claudus, aquilo que manca. Inflexão que rompe a linearidade, introduzindo redondezas, ritmo e variação aos devires. Uma torção inaugural que dá vazante à interioridade e espessura ao mundo. Claudia se constitui em movimento, sem uma identidade fixa, em que cada ciclo implica movimentos doces e cada forma emerge como variação de si mesma. Venturas, labutas e incertezas são nada além de meios hábeis para dissolver desejos e apegos, criando um campo propício à renúncia de todo ego e ao profundo entendimentos da impermanência das coisas. Oxalá esta seja uma das inúmeras vias para a iluminação e para a leitura no rajado dos felinos.
Cadu e Claudia Monteiro, em galope no Ano do Cavalo
Texto curatorial da mostra:
“Vi as montanhas que surgiram da água, vi os primeiros homens feitos de pau, vi as tinalhas que se voltaram contra os homens, vi os cães que lhes destroçaram os rostos. Vi o deus sem face que há por trás dos deuses. Vi infinitos processos que formavam uma só felicidade e, entendendo tudo, consegui também entender a escrita do tigre.”
Jorge Luis Borges. “A escrita de Deus”,em O Aleph
Sobre a artista:
Claudia Monteiro é nascida em Itaperuna (1966). Artista visual, curadora, educadora e pesquisadora, Bacharel em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Iniciou o programa para Mestrado no Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Criou o “PAC: Pesquisa em Arte Contemporânea” e coordena e leciona no grupo de acompanhamento de processos artísticos “Fábrica de Ratoeiras”.
Galeria: