Português
Prova discursiva realizada no dia 22/07/2000
Aqui encontram-se possíveis respostas para as perguntas da prova. Outras respostas, desde que atendam adequadamente ao que foi solicitado, serão consideradas corretas.

Texto I

 
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   Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras no chão, escamando peixe,
para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro.
   Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calefrio percorreu-lhe o corpo. Num
relance de grande perigo compreendeu a situação: adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para
sempre. Adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu
amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
   Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando
escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro.
   - É esta! Disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. -- Prendam-na!
É escrava minha !
   A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com
a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
   Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então,
erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e antes que alguém conseguisse alcançá-la, já
de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.
   E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.
   João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos.
   Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha,
de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
   Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
 
 (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Cap.XXXIII, pp.164-5. Rio de Janeiro: Ediouro s.d..)

                   


Texto II

Rios sem discurso

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Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água





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para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

 

 

(MELO NETO, João Cabral de. In: A educação pela pedra.
Rio de Janeiro: José Olympio. 1979, p.26.)


1

O Texto I corresponde à cena em que a escrava fugida Bertoleza comete suicídio, quando se depara com os policiais que vêm capturá-la, após denúncia de seu paradeiro feita por João Romão, o amante. Leia-o atentamente e responda às questões propostas em "a" e "b".

a) Explique uma característica do realismo-naturalismo expressa no trecho compreendido entre as linhas 13 e 16 . ("Os policiais...de sangue")

Resposta:
Serão aceitas respostas que, de algum modo, revelem as seguintes idéias:
O comportamento humano é determinado por forças biológicas (o instinto, a herança genética), sociológicas e históricas.
Os fatos psicológicos e sociais são vistos, pelo realismo-naturalismo, como manifestações naturais e, portanto, nada tendo a ver com fenômenos transcendentais.
As circunstâncias externas determinam a natureza dos seres vivos, inclusive a do homem.
A realidade passa por um processo evolutivo, dentro de um sistema de leis naturais totalmente definidas.

b)Transcreva a passagem em que o leitor deduz a ironia dos acontecimentos, provocada pelo contraditório comportamento de João Romão.

Resposta:
"Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas."



2

No Texto II, o poeta emprega várias palavras que pertencem a dois contextos de significação: "rio" e "discurso". A partir das relações entre tais contextos, construa uma interpretação para o poema.

Resposta:
Espera-se que o candidato estabeleça articulações lógicas entre os vocábulos que selecionará nos dois contextos de significação - "rios" e "discurso" - e a interpretação construída.


3

a) Substitua cada uma das expressões sublinhadas abaixo por outra que possa ser usada no mesmo contexto, com sentido equivalente:

[...]
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria

[...]            (texto II,linhas 10-12)
Resposta:
porque: pois
por que: pelo qual

Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si ... (texto I, linha 7)
Resposta:
mal: nem bem

b) Diga a quem se refere no texto cada pronome grifado abaixo:
Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calefrio percorreu-lhe o corpo. (texto I, linha 3)
Resposta:
lhe: Bertoleza

Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas. (texto I, linha 20)
Resposta:
os: os abolicionistas reunidos em comissão



4

a) Transforme a oração reduzida em oração DESENVOLVIDA, respeitando o sentido indicado entre parênteses:
...que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. (texto I, linhas 5-6)

Resposta:
...que o seu amante, porque não tinha coragem para matá-la (CAUSA), restituía-a ao cativeiro.

b) Reescreva o período abaixo transformando a oração reduzida de gerúndio grifada em duas orações reduzidas de INFINITIVO distintas. Use, para isso, conectivos diferentes.
Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. (texto I, linha 13)

Resposta:
Os policiais, ao verem que ela se não despachava, desembainharam os sabres.
Os policiais, por verem que ela se não despachava, desembainharam os sabres.



5

As palavras grifadas abaixo chamam a atenção por seu ineditismo.

[...]
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
[...]      (texto II, linhas 5-7)

[...]
um rio precisa de muita água em fios
Para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
[...]      (texto II, linhas 19-21)

a) Diga como essas palavras podem ser entendidas no contexto do poema.

Resposta:
A expressão "dicionária" pode ser entendida no contexto do poema como remetendo ao estado da palavra antes de seu uso no fluxo da linguagem, quando ganha vida ao se combinar com outras palavras.
"Enfrasem", por sua vez, associa-se à noção de interligação. Poços que se enfrasam são poços que se intercomunicam, que se inter-relacionam num processo análogo ao que ocorre com as palavras no âmbito do discurso.

b) As expressões dicionária e enfrasem têm seu caráter inovador associado a aspectos morfossintáticos. No primeiro caso, o autor joga com uma flutuação entre classes gramaticais e, no segundo, lança mão de um processo de formação de palavras. Explique cada um dos casos:

Resposta:
dicionária: a palavra "dicionário", normalmente um substantivo, é usada como adjetivo, concordando em gênero e número com o substantivo "situação".
enfrasem: a partir de um substantivo, "frase", criou-se um verbo, "enfrasar", pelo acréscimo do prefixo "en-" e do sufixo "-ar".